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Não acomodar com o que incomoda: Só até sempre!
Me desculpem por estar errada. Por não estar dentro das linhas, padronizada, avulsa. Ainda há algo em mim não entregue, que não acredita nessa palhaçada toda. Ainda há um resto de brilho nos olhos, duvidando do valor monetário das pessoas, da ascensão a qualquer custo, da incontestabilidade da vitória. Não existe vitória, sabe? Se quando alguém ganha, alguém perde, então ninguém vence. Porque perdemos todos. Eu sou um pouco mais que isso. Um pouco menos pra isso. Estou à margem. Sempre estive. Sou uma marginalizada pelo teor da sociedade. Não a aceito, não me enquadro, não me convence. Vocês podem me oferecer mil carros conversíveis, vinhos caros, restaurantes impecáveis: pra mim são todos uns pecadores. No sentido pior da palavra. Pra mim é pecado jogar a alma no lixo e superestimar essa rotina medíocre, onde só os fracos têm razão. Só quem não tem coragem de abrir as vísceras em público e mostrar de onde enfim vem esse sangue todo. Eu sou uma pecadora. Pra vocês. Vocês não entendem de onde vem esse brilho. E o odeiam. Não é calculável, nem há metas específicas para alcançá-lo. Por isso ele não lhes parece digno. Pois eu digo: a maçã da serpente, seus fracos, é a única vida possível. O resto é literatura inventada para nos podar. Escapa quem pode. Quem não pode, se acomoda. Não leiam meu próximo livro. Compareçam ao lançamento, brindem comigo e queimem as páginas. Se vocês virem suas essências naquelas linhas, vão cortar os pulsos. Nunca mais eu ligo essa televisão. Nunca mais aquelas almas derrotadas. Nunca mais as crianças nem nascidas. A partir de agora, só o que interessa. E eu juro, meu poeta, meu irmão, se você ainda acredita em mim: nunca mais vou me esquecer do que realmente importa. E se você não acredita, vou provar. Eu juro. Não acomodar com o que incomoda: só até sempre. Saudades da vida que sempre mereci. Estou voltando. E é pra sempre!
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 21h29
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You'll see them some day
De coração aberto, peito carregado. Por tudo que nós fomos. Pelo que ainda restou. Então siga seu caminho, eu viverei minha vida. Hoje vi de novo Efeito Borboleta. Há coisas que não podem ser mudadas, e o máximo a ser feito é deixar de tentar consertar. Fica então a cargo do destino nos responder como vai ser. Chega de palavras tortas, atitudes torpes, linhas cheias de rancor, olhares transbordando de cinismo. Eu amo você demais pra continuar nessa guerra sem sentido, vivendo nesse descontrole de sentidos, atropelando sentimentos, manchando nossa história. Ninguém precisa entender, só você. Não estou desistindo, nem partindo, só estou deixando de tentar. Pode ir, nem precisa fazer as malas, eu já as fiz e deixei na porta, pra poupar seu trabalho, como um último gesto de preocupação. Eu continuarei aqui, regando nossas plantas, arrumando os lençóis, recebendo nossos amigos. Voltarei a fazer aquelas coisas que não faço mais nem por nós, nem por mim. Prometo arrumar tudo antes de sua partida, pra você poder ter uma foto melhor na memória ao fechar a porta. Não sei se vou estar aqui quando você voltar, mas ao menos não haverá essas garrafas quebradas pelo chão. Estou fazendo isso por sentir que ainda há algo a se salvar, ainda existe uma coisa boa. Não é uma reticência, nem ponto e vírgula, nem ponto final: só estou guardando o texto na gaveta. Ou ele fica lá pra sempre, ou um dia a gente continua a escrever. Mas só se existirem linhas nobres a serem colocadas no papel. Por fim, fica meu eterno agradecimento por ter me feito feliz numa época distante. E também preciso dizer: eu nunca quis magoar você. Eu só queria ter podido te amar pra sempre, desculpe meus passos tortos. Seja feliz.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h14
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Saindo da sua vida
Só resto eu no desconsolo de mim. Seus olhos de festa já desbotados pela realidade. Os primeiros olhos mudados por mim, e isso ninguém me tira. Você vai me pertencer pra sempre. Você e seus olhos de festa triste. Eu mostrei a você o desespero, a solidão, a tristeza absurda de viver em meu mundo. Por poucos momentos ao menos, você foi um pouco real. Eu me vi infinita em seu olhar, fazendo a festa chegar ao ápice, até desbotar por fim, pela impossibilidade de manter essa personagem torpe, esquálida, feita como nuvem. Um rio de lágrimas eu derrubei em seu colo jovem. Um oceano de viagens, desilusões, desistências, angústias, gritos engolidos. Você ficou inerte com aquilo escorrendo pelas pernas, e quando tentou acalmar com as mãos, percebeu que nunca isso tudo lhe caberia nos braços. “Estou cansado de você, mas não quero te magoar”. Eu nasci magoada, fatigante, sem merecer. Não foi nenhuma novidade. Mas agora preciso ir embora. Não agüento ver esse desbotado em seus olhos todos os dias. Nem vou deixar acontecer o golpe fatal, que faria você virar igual os outros e merecer o meu desprezo sem fim. Então, por isso tudo e mais um pouco, aquele pedido feito às pressas, aos berros, uma quase brincadeira quase verdade, será atendido. O último favor especial que lhe farei: estou saindo da sua vida. Com minhas neuras, devoção, saias curtas, amor inesgotável, mudanças de humor, risadas altas. Ficamos nós sem saber das verdades escondidas, nesse desespero de nunca termos sido. Você, transando com vadias com covas de anjo. Eu, só me deitando com aqueles que não acreditam mais em anjos. Sua lembrança vai ser sempre quase fatal. Mas prefiro as memórias doloridas que me tornarão uma mulher uma pouco mais cínica, a prolongar por mais um dia essa ilusão mútua de que nossa perfeição não se perdeu por não ter sido plena nunca. Eu também me cansei de você. E não ligo a mínima de te magoar. Afinal de contas, alguém tem que fazer isso. E pra eu não morrer de ciúmes, melhor que seja eu.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 23h34
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Todo carnaval tem seu fim
Tô a mil por hora. Terminei o boletim, confirmei a entrevista e não bastasse estar pensando ao mesmo tempo em Federação e a festa pra arrecadar fundos, meu cérebro ainda tentava arrumar um jeito de caber no resquício dos dias da minha semana as unhas por fazer. Tenho um calhamaço pra ler de matéria de constitucional do caderno da aluna aplicada (é, eu não copio matéria) e estou aqui no laboratório de informática escrevendo. O que a gente faz quando um amor acaba? Fica um espaço vazio e minhas mãos escalando as paredes do pedestal. Me dá licença que eu quero passar. Não fica na minha frente que eu passo por cima de você. É, você mesmo, coisinha, que, num passado muito distante, naqueles anos de depressão, me chutava pra baixo. Até hoje tenta, e sua burrice é tão grande que não percebe o quanto tentar me diminuir volta pra sua vidinha medíocre com uma violência de ressaca. Tá vendo? É disso que eu falo: o pedestal. O pedestal é quando as pessoas são só pessoas, e não facadas no peito. As facas existentes são as palavras saídas de minha língua afiada. O pedestal é quando eu sempre venço. Quando tudo dá certo. É o começo da primavera: o sol abrindo as pernas do mundo. É um abuso. Eu olho o mundo nos olhos e falo com ironia desdenhosa: ei, putinha, agora você vai ter que fazer tudo que eu quiser. Afinal, eu paguei, não paguei? Paguei sim, e seu preço pra poder viver dentro de você é sempre muito alto, quase impagável. Eu me perco em prestações e coloco a vida nas mãos de agiotas. Passo por momentos vergonhosos com o sangue que jorra de minhas veias exposto em cartazes pra todos verem, acharem graça, e comentarem o quanto é ridículo alguém precisar passar por isso. Agora, vou me esbaldar. Ao menos antes de aparecerem as flores novamente, sei que sou invencível. E não tem final. O fim é minha alegria indecente descolorindo os dias de quem duvidou.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 15h23
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Compre seus sais
Então você ainda se pergunta por que eu fiquei tão estranha? Porque eu sou estranha. Você achava que meus olhos brilhavam por que? Deslumbramento? Eu já tenho 25 anos de vida e mil anos de solidão. Felicidade? Eu preciso me entupir de comida e bebida pra aguentar viver em minha própria pele e não mandar às favas o primeiro imbecil que vem me dizer o que fazer. É loucura. Aquele brilho todo, as explosões de alegria. É insanidade. Mas não do tipo que você pensa. Eu posso tomar Prozac anos a fio e vou continuar doida de pedra. É um tipo de loucura que nem querendo você teria. É a melhor insanidade do mundo. Eu não me aguento em mim. Eu vazo por todos os lados de tanta coisa que eu sinto ao mesmo tempo e em sentidos opostos. Eu misturo sentimento com pensamento e fica tudo lambuzado em minhas mãos delicadas e desajeitadas. Nunca vou ser normal, por isso não tente me encaixar num padrão de comportamento ou desvio dele. Eu não tenho um jeito de me comportar. Eu me comporto de todos os jeitos. Sou uma vila inteira de pessoas prestes a naufragar. Sou um conjunto de prédios desabando diariamente. Não adianta me entupir de remédios, fazer lavagem cerebral com a Warner, repetirem diariamente todas as leis que existem, me julgarem e vilipendiarem pelos mais diversos motivos. Eu não ligo. Não sigo regras. Não me encaixo. Quando me canso do personagem montado e da fantasia, só invento desculpas pra poder viver assim, mas tudo não passa disso: desculpas. Portanto, compre seus sais -esses ridículos sais, que pra mim não fazem nem cócegas. O mundo pode ter minhas mechas claras, meus saltos e minhas risadas, mas quase ninguém será contemplado com minha loucura. Eu posso até doar completamente minha nova personagem em qualquer abraço, mas não costumo me vender por esses esboços de carinho. Portanto, aproveite a festa, lamba os beiços, mas vá embora no final. Ou ainda não se tocou que sua música já parou te tocar?
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 12h39
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De volta
Depois de tanto tempo, quase me emociono de voltar às palavras, ao meu labirinto intocável, a essa torre no alto do castelo. Aqui, onde ninguém chega e não vejo uma alma sequer, a não ser meus personagens trôpegos, confusos e delirantes, sei exatamente quem sou. Aqui não há passado ou futuro que me impeçam de estar. Só não merecia por hora este lugar, não com as entranhas envenenadas de futilidade e medo. É, tive meu tempo na multidão dos covardes. Algo parecido com felicidade me permite desamarrar esses laços. Mas não é felicidade. É mais que isso. É um tipo de loucura que não existe por aí em qualquer loja de grife, drogas ou balcões onde adoram seu sorriso na mesma proporção de sua posição social. É uma insanidade sem preço, destinada a poucas pessoas dispostas a abraçar a causa independente de ela ter uma utilidade prática. Estou cheia de ouvir e ler sobre pensamentos lógicos, ações racionais, planos e precauções. Quero escrever meu novo livro, caminhar na praia de manhã, beber todo vinho do mundo, surtar, sei lá. Qualquer coisa que não me lembre o tempo perdido me agarrando a essa vida falsa que havia encasquetado de levar. Dane-se amanhã. Eu quero hoje, se não já foi. Quero meus olhos brilhando, reluzindo outros fogos se possível. Me perdi em mim, em minha nova personagem, criada pra me salvar daquilo a que foi destinada, como se eu pudesse vivendo outra vida deixar de ter aquele arrepio na espinha ao acordar. Mas –agora sei- não era medo: era fascínio, insanidade, respeito. Minhas garras de leonina me rasgam durante a noite toda pra tentar tirar de minhas veias um pouco desse bálsamo e colocar entre letras essa explosão de sentidos. É, não faz sentido. Estou escavando dentro de mim pra me merecer. Pra merecer de novo esse todo. Vai ser aos poucos, árduo, como toda conquista. Contudo, ao menos dessa vez, luto por uma causa justa. Quem sabe dessa vez, eu me ganho de verdade.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 22h14
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Inverno
Queria poder usar agora as palavras certas. Mas as palavras certas não existem no Universo inteiro. Não há ninguém que entenda, explique, ou saiba mudar. O lençol desarrumado, as coisas pelas estantes, as gavetas empilhadas. São tantas coisas pra me livrar, que nem sei por onde começo. A cada fim, me livro de toneladas a mais do que arrecadei. É como se me perdesse um pouco com o passar das estações e então me pergunto: Será que algum dia vou esvaziar por completo? Me sinto tão cansada. Tão absurdamente cansada. É como se o mundo esperasse eu dormir. O tempo todo. Mas sei que não adianta adiar: preciso enfrentar essa bagunça toda e limpar a sujeira. Dói, contudo adiar mais um dia sequer nessa festa que já acabou vai esvair minhas forças ainda mais. Preciso sair do meio dessa zona antes que vire parte do lixo. E falta uma lasca pra isso acontecer. Falhei. A cada mentira, indiferença, gesto de egoísmo, sábado de lágrimas, eu percebia que falhara. Haveria muito mais pra se dizer sobre isso, mas relançar um olhar sobre cada folha cujo destino é o grande saco de lixo, é só remoer a dor. Então fico na paz, poupando-me das lembranças, das palavras. Por isso, quanto às vinganças mal traçadas e pessimamente executadas, só tenho a dizer que ninguém vence. Cada lágrima derrubada por ódio e desespero é mais uma perda pra qualquer lado. Assim, o melhor é tirar os times de campo e rezar por dias melhores. Encaixotar o que não der pra jogar fora, mas se livrar do máximo possível. Vejo os copos vazios e me pergunto por quanto tempo vou preenchê-los só com água esperando desesperadamente colocar uma flor dentro deles. Deve demorar. Cada vez demora mais. Viro uma corrente de forças homéricas que as pessoas adoram e temem. E aquilo me sob a cabeça. Toda aquela luz surgindo de mim e somente pra mim. Tenho medo de um dia subir e nunca mais descer desse pedestal. Só depender de si é um preço muito alto a se pagar, por isso me desespero tanto cada vez que faço uma escolha torta. Cada vez nasço com mais traços característicos de minha personagem mais cínica. Cada vez chego mais perto de me tornar a personagem que prendi lá no alto da torre do castelo. Que morram as rosas, sequem os oceanos e cessem todas as canções. Mas que tudo volte na primavera. E que o inverno seja breve e não me congele mais do que o necessário pra sobreviver. Enquanto isso pretendo escrever. Até calejar os dedos. É meu único jeito de rezar.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h01
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O novo dia
Dessa sacada perfeita, olho com pesar e esperança para o novo dia. Pesar, pois não vai ser um dia fácil, com tantas lembranças ainda, mas esperança porque vai ser um dia meu. Alivia. Ontem, depois da última pergunta, decidi que o dia seria novo. Às vezes não sei como começar, pois todos os meus momentos eram pra cuidar dele e tentar fazer dar certo aquilo tudo. Mas opções nunca me faltaram, e agora, elas se abrem ininterruptamente mesmo quando penso em desistir. Já não choro mais. Já não quero mais. Já não tenho mais tanto ódio, só um sentimento de derrota invencível, cada vez mais nítido. “Por que você não foi?”. “Não sei. Eu só não fui.”. É... Olho pro sol ainda presente, mesmo sendo outono. Vontade de ir embora, esquecer esse novo futuro tão cercado agora de velhos dias. Mas onde quer que você esteja, lá estará você. Por isso, decidi ficar. E mudar. Mudar tudo, da cabeça aos pés, do começo ao fim. Ainda quero as mesmas coisas, só não do mesmo jeito. Ainda quero escrever pra sempre, mas não por alguém, e sim por mim. Ainda quero todos os vinhos do mundo, mas nunca mais acompanhado de reflexões sobre pessoas já passadas, lembranças desgastadas, relações falidas. Eu quero rir. Quero coisas melhores. Sempre quero ir pra frente, nunca pra trás. A minha alegria deu um porre na tristeza. Por mais difícil que seja viver agora, sinto uma liberdade nunca experimentada antes. De repente eu não quero mais iluminar ninguém, mas sim ser um foco de brilho, sozinha, egoisticamente presa a minha vida. Olho para o dia novo. E finalmente é um dia realmente novo.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 10h32
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Uma péssima estação (texto encomendado por uma amiga muito querida)
Quando pude ir embora, fiquei. Por você, por nós, por aquilo de que falam os melhores escritores. Construí paraísos em ruas de terra batida, nas flores da minha casa, no escuro da minha alma. Eu, que sempre fora estigmatizada como a não bem-vinda nas rodas das meninas pra casar, estava lá sentada no trono em que você me colocou. E eu apostei alto, apostei tudo. Joguei todas as fichas, porque eu só entendo o amor assim. Não sei viver apenas um caso mais sério, pra mim é castelo com tapete vermelho e valsa no final. Eu nunca vejo os dragões, as bruxas. Eu, que nunca precisei de homem, me via presa a você, dependente do ar que lhe rodeava pra respirar em paz. Eu queria estar dentro de você mais do que dentro de mim. Queria uma estrada que levasse você pro sucesso, mais do que queria isso pra mim. Você vê? Nem se via felicidade nisso tudo pra mim, só pra você. Mas eu fazia planos por nós dois, abdicava da minha vida por você, como se fosse uma obrigação natural do cotidiano. Afinal de contas, não é o que todas fazem? Por isso elas têm essa panca toda, porque agüentam esse monte de esterco. Agüentam caladas as ausências mal explicadas, os silêncios cortantes das tardes de sábado e até a prisão. Havia dias em que o frio das grades parecia ser imensamente maior do que meu coração. Ainda assim eu fiquei lá, não fiquei? Estive lá todos os dias, mesmo nos piores, agüentando suas imperfeições como se fossem os melhores defeitos do mundo. E pra que? Pra você me jogar na cara, no final, que o mundo é cheio de gente com a alma podre e a vida limitada. Pra você me provar que até eu, com os olhos abertos pela poesia, podia ser enganada por um membro dessa multidão de mentirosos, desse batalhão que caminha por aí com o as veias estancadas de sangue ruim, se envenenando todo dia como se fosse a coisa mais normal do mundo. E aí, depois de tudo, eu me vi com a vida sem planos e sem você pra justificar a ausência de tudo. E foi a melhor coisa que me aconteceu. Porque você passou, como uma estação colocada por engano em minha vida. E eu fiquei, como sempre, como nunca. Nunca estive tão feliz em meu papel. E quer saber? Eu não preciso de você pra mais nada. Só preciso dessas tardes iluminadas, dessas noites cheias de festas, de todas essas pessoas sorrindo pra mim, dos meus novos planos. E quando a primavera voltar, eu vou estar como sempre estive: inteira.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 14h46
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Sobre o amor
Sabe? Eu fiz terapia. Um tempão. A única coisa que serviu foi uma teoria da minha psicóloga que tratava sobre o amor ocidental. No oriente, as pessoas pensam diferente. Aqui, não. As pessoas querem amores impossíveis, com arroubos de paixão e uma luta desenfreada pelo ser amado. Quando elas conseguem o que tanto buscam, perde a graça. Isso porque elas não queriam um amor, queriam aventura, história pra contar, conquistar, afagar o ego, um troféu pra mostrar pros outros, assunto pro bar.
Amar é outra coisa... Amar é se preocupar, querer fazer o outro feliz e ser feliz ao lado dele. É ter calma, plenitude, e não viver brigando e lutando pra conquistar ser melhor que o companheiro. Amar é estar lá, pro que der e vier, por isso a frase: Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza. Não é ser da boca pra fora, com declarações mentirosas, é ser de fora pra dentro. Viver aquilo, pois não há outra escolha.
Amor tem que ser construído, não conquistado. É você ajudar, abraçar, estancar as lágrimas, largar tudo pra estar ao lado da pessoa que você ama quando ela precisa, se desdobrar pra comprar presentes e estar presente, deixar de ser um pouco si pra ser um pouco do outro. Você deixa de usar algumas roupas, de olhar pra outras pessoas, de fazer certos planos. Amar também é abrir mão de certas coisas, porque no fim das contas, vale a pena.
Quando vocês brigam dá mais tristeza do que raiva. Quando você vê o sorriso dele, parece que o mundo não tem outra razão de ser além de esperar por aquilo. Quando ela fica brava, você a acha linda mesmo assim. Até mais se duvidar. Dá vontade de bater em quem deixa triste seu amor, de cuidar pra que ele nunca se machuque. Todos os seus ex parecem não ter tido nunca sentido algum na sua vida, porque era aquele, ou aquela, que você estava esperando.
Mas às vezes as pessoas não percebem isso. Aí elas jogam tudo no lixo e vão atrás de outro amor, sendo que ele estava exatamente ali. E tem tanta gente no mundo que é podre, que é pobre de espírito, egocêntrica, desalmada, que no fim você vai acabar lembrando-se daquele abraço, do sorriso, das risadas, e se odiando por ter perdido tudo aquilo. Na maioria das vezes, não tem mais volta. O amor se perde quando você se perde. Sobra apenas um tremendo vazio. De tudo sobra um pouco. Muito pouco. Às vezes, quase nada.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 21h52
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A outra parte do mundo
Será que eu perdi o toque de Midas? Transformo agora nada em nada e coisa assim? Pedi o trem das cores e nem faço idéia de onde andam as antigas estações? Meu passado não me pertencia mais e segui por outra estrada. De repente vi que não precisava de nada daquilo de antes. Talvez por ter perdido o futuro. Talvez por ter visto a falta do essencial nele.
Um dia eu fechei as portas de trás e abri as cortinas do mundo. Criei uma personagem insustentável e me vi no centro do palco sem saber interpretar. Derrubaram-me de lá e me colocaram de volta. Eu sei: enquanto não lhes devolver o que prometi, vocês vão continuar me cobrando. Mas vejam bem: eu sou só uma menina há tempos esquecida embaixo de um quadro chorando pela vida negada.
Ninguém sabe como dói acordar numa pele alheia, sentindo gostos insalubres, desejando berrar por cada veia, a todo segundo. Vocês não têm a alma em chamas num corpo inerte. E mesmo assim me cobram.
Vou lhes dar tudo isso. O brilho. A vitória. A verdade. Mas não me arrastem pro fundo querendo ver o raso. Vou mostrar os precipícios de todos os seus sonhos. Vocês vão sentir como é ver a fantasia em trapos no chão. Vão odiar saber quem são.
São tantos caminhos marcados. São passos inertes. Músicas, as mesmas. Houve um dia em que o labirinto se abria em mil composições a qualquer olhar, mas hoje estou dois olhos mortos de cansaço, sujos de embaraço e calejados pela visão grotesca, imensa do mundo. Eu nunca soube que a alegria não dizimava a tristeza. Nunca me disseram o tamanho disso tudo.
Li outro dia que escrever era doença. Tudo agora é doença. Até cansaço é doença. Eu quero estar sóbria e de olhos bem abertos até o fim dos meus dias pra não tomar cortinas por salvação. Não me cubram o mundo, eu quero vê-lo mesmo que me cegue no fim.
Estou pensando naquele filme do aquário e no que a menina do livro do escritor fracassado falou. Estou pensando no fim das coisas e finalidade delas. Não paro de pensar e isso está me matando. É como se mil abismos transpusessem meu caminho e eu não tivesse pés pra me jogar de nenhum. É ridículo pra alguém que anda com as mãos, sentir falta dos pés.
Como queria que vocês entendessem que quanto mais eu me entendo menos sou entendida e pra mim tudo bem isso ser assim, mesmo não sendo pra vocês. Eu conheci pessoas lindas, extraordinárias, até hoje perdidas pro mundo por quererem colocar pra fora suas entranhas e fazer parte dessa enorme multidão, desse exército de desbotados. Eu não tenho medo de nunca fazer parte de nada e ser julgada por batalhões inteiros. Minha guerra é interna e o mundo é apenas uma parte do meu dia.
Eu sei que às vezes pareço fraca, mas minha coragem está em agüentar as conseqüências de ser eu mesma a todo custo, sem me preocupar em ganhar ou perder, e não em mostrar força para os outros. Ganhar ou perder é pra quem quer o paraíso ou se contenta com o inferno. Eu, por mim, prefiro passar a vida no purgatório a lutar por qualquer coisa além de escrever e me ser.
Às vezes quando fico olhando o mar por trás dessa franja fingida, penso no ônibus que não tomei, na passagem de avião rasgada e até no trem perdido. Nunca foi tão bom ter ficado. Quanto a nós, é o que posso dizer hoje. Meu cansaço me venceu, mas não podia deixar de falar da experiência que tenho tido por fatores diversos e o quanto isso pode me tornar ininteligível. Eu não sei o que isso tudo quer dizer nem a relação de uma coisa com a outra. Só sei que foi a única noite em que dormi sem medo de odiar os lençóis no dia seguinte.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 00h32
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Pra você: o melhor de mim
E se nada fosse mentira? Se enfim houvesse um “sou feliz, e daí?” de verdade? Isso seria assim, como tem sido. Um dia a dia sem sustos ou loucuras, só uma vontade louca de um susto eterno, mas que faz bem.
Eu tenho tantos passos mal traçados... Vivi em poços sem fundos, calabouços eternos e perdi quase toda minha juventude num labirinto sem fim. Eu tenho os olhos sem rugas marcados por dores imensas, responsáveis por meu semblante fechar sem motivo aparente. Tenho um milhão de histórias dos submundos desenhadas pela metade pra você, mas nunca contei de quando minha casa estava incendiada e meu namorado da época não reparou em meus olhos arregalados. Ele só sabia me perguntar o que o cara que eu amava naqueles tempos havia dito pra mim na festa. Eu não contei pra você do tudo, nem metade.
Mas agora, o espelho já não mostra mais minhas feições. Elas se perderam na luz e escuridão desses dias lindos, desses dias de guerra entre a alegria e a solidão. Mas quando olho em meus olhos, ainda sou eu.
Perdi algumas linhas no caminho, que me seguravam no chão hostil, lá onde todos se acostumam com o mundo áspero e frio onde nascemos. Perdi a maldade necessária pra me manter em plena terra. Perdi também laços tão antigos, de um passado insano e belo. E não dói mais.
Fico me perguntando onde estava antes essa parte do mundo, onde não dá medo de levantar nem de dormir. Onde eu não saio de casa com os bolsos carregados de pedras, as mãos preparadas pra guerra. Será que se eu precisar ainda vou lembrar como lutar, jogar ou fugir?
Eu, que sempre tive um milhão de abrigos e um milhão de amigos, prefiro hoje dançar na chuva sozinha com você. E cada música que você cantar, eu retribuirei como você quiser. Agradeço por todos os dias, por me fazer querer ficar e achar absurdo ver um gesto de maldade. Por ter mudado minha vida, me ajudado a ver outro mundo e outros traços em meu próprio espelho. Aqui nos bastidores, no camarim, eu retiro toda a maquiagem e me dispo da fantasia. Vestindo-me de mim, me entrego de bandeja: a você, a mim e ao mundo. É como eu falei tantas vezes. Pra você: o melhor de mim.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h22
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Lemas
Seja você. Goste de você. Assuma o que você é, faz e deixa de fazer. Agüente as conseqüências. Aposte alto. Aposte sempre. Ame, se entregue, mas vá até o limite da sua dignidade. Tenha coragem, jogue as cartas na mesa. Vire a mesa. Covardia é pra quem já desistiu faz tempo. Melhor morrer.
Não se faça mal nem por causa de você, nem por causa dos outros. Não é seu amigo, seu namorado, seu chefe: só você é responsável por como está se sentindo. As escolhas foram suas. Assuma suas próprias responsabilidades. Nem todo mundo vai concordar com você. Muitos vão querer azedar seu dia. As pessoas têm preconceitos, maldade, inveja e medo. Principalmente medo. De ter coragem também. Tente ajudar, mas não tenha pena. Você não é melhor que ninguém.
O importante é ser honesto consigo mesmo. Um grande amigo falou um dia que as pessoas devem procurar estar perto de quem e o que as fazem felizes. Então pense se não está desperdiçando seu dia com poços sem fundo, relações falidas e situações constrangedoras pra seu coração. Cuide do que tem dentro dele.
Não se acomode. Largue o emprego ruim, o marido galinha, o amigo que te puxa pra baixo. Dá um pé na bunda de tudo que é cretino. E que se danem as histórias mal passadas e o futuro incerto. Abra os jornais: nada é certo nessa vida. Nem o sistema, nem as tendências, nem a própria vida.
Se der, faça o melhor. Se não, faça o possível. Beba vinho, coma chocolate, não fume (eu sei, eu fumo, mas vou parar!). Se apaixone sempre, mesmo sabendo que sempre vai se magoar, ainda que o outro também goste de você. Amar é suportar a dor e na hora certa ser sincero com quem está com você. Eu também não sei se isso é amor. Ninguém sabe. Aceite isso como verdade universal e se conforme. Mas ame, acredite em contos de fada, não ligue pra essa bobagem que falam hoje que você precisa controlar esse tipo de sentimento, pois ninguém controla na verdade. Quem não se dá, não se tem.
Tenha caráter. Cuide de seus pais, mesmo que eles ainda possam cuidar de você. Trate seu irmão como seu melhor amigo e seus amigos como irmãos. Não seja leviano com ninguém: isso volta pra você sem a pessoa fazer nada. Leia livros (Paulo Coelho não conta). Cante mesmo que seja uma negação pra isso. Não deixe que ninguém lhe diga o que fazer. Não esqueça qual o sentido de você estar fazendo o que está fazendo. Se nada fizer sentido, não faça nada. Vá pescar, meditar, beber, mas busque um sentido.
Não siga meus passos. Não tome essas minhas verdades pra você. Crie as suas, acredite nelas e as defenda. Esses são os meus lemas, e se eu os digo nessas linhas e em outras, é pra nunca esquecer. Nem sempre sou feliz assim, nem sempre me dou bem, mas sempre sou eu mesma. Olhos sem escudos que mantêm o mesmo brilho desde sempre. E no fim, tudo acaba dando certo de uma maneira ou de outra.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h42
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"E aí tudo muda"
É meio difícil explicar, mas vou tentar. A vida tem sido mais fácil, o mundo bom comigo. Palavras como facilidade e bondade, por exemplo, antes tão restritas aos meus sonhos, fazem parte do meu dia-a-dia. Perdi meus mapas de ciclos viciosos e os baús de certezas.
Outro dia saí pra trabalhar e coloquei um CD do Legião Urbana. Não entendi o que Renato Russo dizia. As frases daquelas letras perderam o sentido, porque fui tomada por uma realidade completamente diversa. A solidão excessiva que pautava meus dias me deixou sem grandes dramas. Aliás, não tenho mais a alma complacente com o tal drama.
Por toda minha vida estive presa por aguilhões fundamentais pra minha existência suportável na Terra. Sempre coloquei os pés debaixo de todas as areias possíveis pra nunca cair por acaso no mundo assim de graça. De repente me vi entregue aos dias como se tivesse um lugar pra mim entre os que não passam as noites chorando em posição fetal.
Não sei se escolhi esse caminho ou você me mostrou sem querer. Você me olhou de um jeito que eu nunca me vi, e por sentir-se bem estando ao meu lado eu também me senti bem comigo. Você me fez rir o tempo todo quando um sorriso seria impossível. Você perdoa minhas inseguranças como se eu merecesse. Você apareceu quando eu não acreditava mais em nada nem em ninguém. Você me faz não ter vontade de estragar tudo.
Nunca achei que seria possível alguém sobreviver às minhas fragilidades amedrontadoras. Nunca pensei gostar de alguém ao ponto de não querer magoar. Nunca acreditei que um dia iria aparecer realmente uma pessoa que não me desse desespero pra ir embora, fugir dali. Mesmo com tantas certezas eternas incrustadas à minha mente dificultando qualquer possibilidade de algo dar certo, "tudo é relativo quando te fazer feliz me faz feliz". De verdade: isso nunca me aconteceu antes. "E aí tudo muda".
Talvez você nem saiba o valor dessas linhas, mas eu sei, por isso, agradecer seria sempre pouco. Por isso, um texto é mísero perto da riqueza desses dias. Eu me tornei uma pessoa melhor e não me importa se passado e futuro estão aí pra testar tudo isso, porque o presente finalmente tem seu sentido literal em minha vida. Se a vida é feita de temporadas incertas, então não me importa se chegar o inverno um dia. Mas a verdade é que hoje, se eu pudesse escolher, seria primavera pra sempre.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 00h16
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De joelhos
Quando era pequena, meu pai escreveu em meu diário: "Dizem que há mundos lá fora, que nem em sonho eu vi, mas que me importa todo o mundo, se o mundo todo é aqui?"
De repente entendi o significado daquela frase. É como se o mundo todo tivesse parado e me pedido um tempo. Pra mim. Me dei esse tempo e aqui estou, entre risos e brisas. Esses risos-brisa que me amparam e me colocam pra dormir toda noite com Deus. Um Deus que não acredito, mesmo já tendo visto. Uma paz que nunca escolheria, mas me tomou por força impositiva.
De repente choveu e era quase primavera, mas mesmo assim eu estava contente. Acho que nunca usei contente em meus textos, porque a palavra exige uma inocência nunca tida por mim. Essa chuva fora de hora, manchando de terra o asfalto sedento de sol. O mundo parou.
O mundo parou pra eu poder combinar pulseiras com olhos brilhantes. Não há strass que chegue. De um lado, o labirinto eterno; do outro, a luz ofuscante. Como não posso sair de mim nem deixar de seguir o brilho, fico cega pela luz tateando as paredes de meus dias. Quero tecer sinfonias pra esses dias, quero compor um quadro perfeito, mas até minha presunção estanca enquanto choro esmeraldas. Quem nunca chorou de alegria, não sabe do que estou falando.
De repente não me importa não saber os fins dos caminhos. Jornalista, escritora, bacharel em direito, encarregada de negócios, dançarina, atriz, não me importa. Só tenho certeza de meu compromisso diário de agradecer de joelhos, não por eu ser como sou, ou o mundo ser como é, mas por estar onde estou. Por isso, pela primeira vez, o mundo parou e eu não estou com pressa. Quando o mundo voltar a girar, quero que seja devagar, pra encaixar meu futuro em meus dias, não mais ao contrário. Pela primeira vez, não quero engolir a vida; quero degustar cada pedaço como se fosse o único, pra que eu nunca acabe de comer.
Esses dias vi minhas amigas de infância. Lembrei de quando era inverno e a gente sentava no banco da praia mais deserta do planeta e ficava olhando os dias inertes na terrinha. A gente ficava imaginando todos aqueles mundos lá fora. O mundo todo sempre esteve aqui.
Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h07
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