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Porta do labirinto


Reencontro

Hoje é o primeiro dia do resto das nossas vidas. Achei bonito você me chamar de amor, assim sem mais nem menos. Dancei com mais delicadeza; um sorriso no rosto, há tanto esquecido, eras e eras... Estou tão feliz por hoje estar assim, só com você. Olhando todo requinte dessa insanidade disfarçada.

Minto: eu, você e o vinho. Ouvindo New York. Depois Toquinho. Depois Friends. No fim - e bem no fim - o ventilador. Tudo perfeito nessa sexta-feira. Há quanto tempo a gente não ficava assim, apenas entregue, até escrevendo um pouco?

Essa semana foi tão extraordinária, tão especial, né? Finalmente estamos vendo os dias voarem, a luz no começo do túnel, a alegria em cada entardecer. Tudo muito deslumbrante. Bonito mesmo. Tem gosto de brigadeiro feito com chocolate do padre e manteiga sem sal. Tem "cheiro de verão", como diria uma amiga nossa.

Talvez seja uma mudança lunar eterna. As coisas melhoram com uma vagarosidade tremenda, mas é tanto, que poderia demorar pra sempre, caso precisasse. Não precisou, com a graça dos deuses!

Hoje a felicidade se resume a estar comigo mesma defronte ao mundo, às palavras, ao vinho, ao seriado antigo, às músicas meio bregas. Qualquer coisa seria boa, mas hoje não: hoje merece ser perfeito.

"Podemos sorrir, nada mais nos impede!" (eu disse que as músicas eram bregas rs)



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 23h34
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O melhor ano da minha vida

O melhor ano da minha vida. Não só pelas conquistas, pela sorte, por ter nascido meu afilhado ou reencontrado tantas pessoas importantes do meu passado (que nunca saíram do meu coração). Mas eu me venci.

Nenhuma tristeza ultrapassou o espaço de um dia. Pude deixar pra trás tudo que me prendia à qualquer tipo de dor, por mais lindo e encantador que pudesse parecer. A cada dia levantei com a certeza que podia vencer, e eu venci, com uma perseverança que beirava a intransigência.

Pelas amizades de infância, pela minha família, pela minha segunda família, pela minha terceira família (Má, Rô, babys), pelas meninas que me fazem rir todo santo dia, e quem tem tanta benção assim no mundo?

Por cada taça de vinho, por cada abraço sincero, por cada dia que me sentei aqui e, novamente, irremediavelmente, escrevi, por cada beijo sincero ou desonesto, por cada noite perdida ou encontrando-me, por cada gargalhada em plena aula, por cada dia que neguei um cigarro, por cada dia que me sentei e estudei.

Pelo Ministério Público, pelos 10 quilos perdidos, pelos amigos novos, por todas as conquistas, enfim, que não devo só a mim, mas à minha base e aos deuses.

E são tantas alegrias que eu sequer me lembro de todas pra contar aqui pra vocês!

Por isso, nesse fim de ano, eu só tenho a agradecer. Se 2010 foi o pior ano da minha vida, 2011 foi o melhor. Eu voltei, mais rápido do que poderia supor. E 2012?.. 2012 é NOSSO!!! Disso eu tenho certeza.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 17h40
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Não posso mais viver sem mim

São incontáveis natais e viradas de anos. Você sabe, o tempo passa numa velocidade enlouquecedora. Só não piro, porque já pirei faz tempo. E de todas as minhas escolhas, manter a insanidade foi com certeza a melhor delas.

Você sabe, não há mais palavras como haviam antes. Há outras, até melhores, escritas entre uma doutrina e outra, esperando pela hora de serem elas a única razão de minha existência. Mas aquelas outras coisas, ditas entre uma noite de verão e outra do mais avassalador outono, fazem parte de um livro sequer escrito. Você leu meus resumos? Pode ver: as palavras não estão lá. E você sabe muito bem porque.

Quanto a quarta em que me enchi de blush e coragem, no fim das contas, eu era mais uma vez uma garota triste folheando uma prateleira repleta de vinhos. Mas mesmo sem esforço, não fiquei triste sequer até o fim da madrugada. Ele era só mais um copo de pinga travestido de taça de pró-seco. Por sorte, nem ressaca deu.

Já o domingo anterior, foi apenas mais um domingo mesmo, porque, como bem se sabe, quando vencemos todos os dragões sozinhos, quem precisa de um salvador? Eu só preciso de uma prateleira repleta de vinhos pra folhear.

Mas veja bem, eu contei tudo de trás pra frente, porque as histórias são tão compridas e cheias de detalhes, mas eu realmente tenho me esquecido até do essencial. Não é o fato de não me importar. É pior: sequer me importo de não me importar. Pra mim, é melhor.

Veja bem, não me entenda mal. Foi muito complicado passar por tudo aquilo e o resto também. Agora só quero descomplicar minha vida porque, sinceramente, de emaranhado, já basta esse labirinto explodindo em caminhos desconexos.

E quanto às despedidas faltantes, vamos esperar o momento de falar desse último ano que foi tão lindo e cujas tristezas não duraram duas taças. Porque eu mudei. Mas hoje eu realmente precisava dar alguma satisfação. Não por nada: só porque é reconfortante poder ser indiferente sem ser cruel. E nem ligar.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 23h47
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Domingo

Era um domingo, como outro qualquer. Era pra me recuperar de ter quebrado o salto num buraco improvável.

Sábado estive a tarde com as mesmas pessoas maravilhosas e atravessei a madrugada pra domingo com minhas amigas de infância. Depois ele finalmente chegou, mas eu não tinha mais as chaves e talvez por isso a porta mais um vez permaneceu entreaberta.

O Santos perdeu o campeonato mundial logo pela manhã. A nação santista passou as primeiras horas do dia triste; na terrinha, a tristeza era ainda maior, mas o motivo era outro. Lembrei mais um vez o quão cedo...

Hoje não haviam janelas suficientemente abertas. Caminhei na praia, mas não passou. Porque era pra ser só um domingo e pra amanhã ser só uma segunda. Acontece que não foi e nem vai ser.

Talvez se eu continuar respirando devagar e sendo gentil, com dez doses de bom senso, costurando um sorriso no rosto, quem sabe eu consiga escapar com alguma pele no corpo.

É quase Natal. O melhor que eu faço é comprar um gorro vermelho e carregar um pouco no blush pra não me verem corar.

É um domingo, como outro qualquer: como todos os domingos, rola aquela ressaca moral. Mas bota ressaca nesse domingo!

 



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 19h20
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Porque nem tudo é pra sempre

Então hoje retirando a maquiagem percebi que jamais seria capaz de lhe desejar mal algum. Porque você foi tão você quando eu mais precisei. Desse jeito meio torto e errado de ser feliz e querer sempre se divertir. Desse jeito tipo ele, me fazendo rir mesmo tendo esperado dez mil horas na portaria do prédio porque o horário é sempre o de menos, né? Quem não tem relógio não sabe quanto o tempo demora a passar pro resto do mundo.

E você esteve ao meu lado naquelas horas tão tristes, e me deu aquele lenço e aquele abraço quando eu não merecia. Você soube da história e me perdoou, quando nem eu havia me perdoado. Você foi gigante ao abrir a porta da sua casa e da sua vida pra alguém que tinha demonstrado tão pouco respeito.

Foi muito bom, foi ótimo, foi como se ele tivesse aqui ainda, foi um bônus, uma faixa especial do melhor cd do mundo! Foi minha companhia quando eu só queria ele e mais ninguém. Foi o que manteve minha sanidade, mesmo sendo tudo tão insano.

Mas você tem aquele não ter. Falta muito de tudo, sabe? Você nem ao menos tem um relógio, um calendário, um caráter, uma agenda, um coração. Nem por isso tá errado. Nem por isso eu desejo o mal. Eu seria incapaz, porque te quero muito bem! Você foi a melhor amiga de tempo curto que eu tive.

Eu tenho que deixar você apenas como parte da história. Como uma memória divertidíssima e tão importante, e (como não dizer?) especial! Mas não sei lidar com essas pessoas com impossibilidade crônica de ter qualquer sentimento para com os outros, qualquer responsabilidade para com o mundo. Por isso retirei a maquiagem e fui dormir na paz que conquistei arduamente. Sobram motivos pra você não fazer parte dessa paz; você sabe...

Tudo do melhor pra você sua linda! E fui. Mesmo.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 00h32
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Entre dois mundos

Estou quase um ser humano. Quase circula sangue pelas minhas veias. Quase bate meu coração. Quase toca o telefone. Mas não toca. Se ele tocasse, talvez.

O que eu não te disse aquele dia é que a porta desse labirinto não está verdadeiramente aberta. Que jamais me permiti ser amada por quem realmente sou, pois seria como se perdesse a força de levantar dez pedras com uma só mão. Não falei dos véus, das perdas, das linhas tortas de minhas mãos. Nem li as suas. Falei dos livros, mas não dos motivos deles. Não falei da época de poesias em guardanapos de bar, nem dos seres alados, das estantes do meu coração cobertas de livros, dos personagens. Não contei do silêncio, da solidão, da frieza, do meu medo de espelhos.

A verdade é que eu fui tomada de surpresa. Agi como quando se está faminto e chega em uma festa de casamento. Você come muito, com culpa, sem classe, sem ao menos sentir o gosto dos quitutes tão bem elaborados, e acaba fazendo feio mesmo com o vestido mais lindo; a festa tão esperada e você ali, metendo os pés pelas mãos.

Lembra de antes? Eu me vestia de frio, com roupas escuras e distância. Com sorrisos montados e olhos baixos. E você e sua gentileza. Por dentro, eu me sabia nua dos pés a cabeça. Por isso não queria, não podia, e fugia pros lugares onde eu conhecia. Agora me vejo irremediavelmente jogada num naufrágio, e -que sina! - eu só tenho asas, não guelras.

O que eu não te disse é que acredito em asas de borboletas, bruxas, fadas, espíritos e santos. Que passei a infância em ruas de asfalto e trancada em um colégio com muros enormes, freiras enormes, com quadros cujos olhos das pessoas se mexiam, mas minha adolescência foi entre as ruas de terra e mesas de madeiras de uma cidade pequena. Daí, depois, eu conheci a magia, os bares, as palavras e as noites eternas. Só bem, bem depois, acabei princesa, envolta em luto, mártir, e por fim, entre o exílio e a glória, escolhi ser só uma escritora.

Hoje sou só uma escritora, com o coração trancado, o celular desligado, os sonhos atrapalhados. Entre mortos e feridos, salvaram-se as palavras. Sempre foi muito pouco pra mim isso, mas hoje em dia, é tanto!

Sinto falta de você. De mim. Mas não vou voltar, nem cumprimentar com educação um estranho passando por mim na rua. Por isso cerro os olhos, endureço o semblante e mantenho a cabeça tão erguida. Por isso, mesmo gritando, sorrio em silêncio. Só sei ser assim: quase humana.

...

Quando ele ouvia aquela música do Sinatra eu só ficava imaginando como alguém poderia ser feliz desse jeito. Hoje eu posso entender. Ser feliz era o menos importante. Uma das lições que ele me ensinou é que, seja como for, ele fez tudo do jeito dele.

É só uma lembrança, um parênteses, uma parada entre dois mundos.

...

E se o telefone tocar, mesmo desligado, então eu vou acreditar. Por enquanto, o melhor de mim tem sido me dizer através de um labirinto inventado. Caminho na corda bamba, e vejo isso como um ato de extrema coragem, afinal de contas, nessas condições, quem ousaria correr?

(E se durmo hoje com o telefone desligado ao meu lado, esperando tocar, é porque você sorriu tão bonito! Parecia até verão outra vez...).



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h38
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Eu não me rendo. Não nessa vida.

Eu tenho ouvido as batidas do relógio ao contrário. Tipo voltando. É, ele toca sim, o tempo todo. Coloquei dentro da vitrola. Se você não tem uma vitrola, então perdeu toda a esperança. Pode encaixotar os navios e jogar pela ladeira junto com sua (como você diria?) vida desregrada. Eu chamo sua vida nova de tédio.

Cansei.

Quando eu canso, começa leve: tremedeira, falta de ar, desleixo, pesadelos, insônia, nervosismo. Depois vem meu bater de saltos de madrugada, o desprezo, a irreverência, e, por fim, a morte dos maquiadores. Essa é a parte mais legal!

Você poderia então, só por hoje, só por um dia, ser menos irritante? Você acha bonito colocar no álbum uma foto sua junto com um sobrenome manchado de maquiagem? Embaixo da base e do corretivo está aquele se vender pelo preço do leilão, mortes, corrupção, miséria, nojo. E você acha tão bonito que faz questão de colocar o sobrenome imundo em letras garrafais. Jamais ouvirão meu silêncio quando se tratar de arte, ética ou justiça (essa última, paixão recém descoberta). Você me vê calada, mas só estou guardando minhas palavras pra depois. E meus sorrisos são frutos desse meu deliciar-me com sua ignorância, sua ganância, sua falta de perspicácia.

Eu estava lá antes, vi as histórias acontecendo. Era expectadora desse teatro todo. Mas depois, estando lá dentro, vi o quanto tudo poder ser muito, muito mais podre. Me fiz de maquiadora. Você só não viu quando joguei todos os blushes fora. Não acredite na inocência da minha voz, me diminuindo até a idade. Não creia em meu sorriso tímido, minha voz baixa, minha reverência. Irreverência sempre. Não creia sequer no brilho dos meus olhos. Me sirva mais um cálice de vinho e eu continuo na mesa. E, só por isso, você se acha importante?

Pois, pra mim, o lixo continua sendo o lixo. Pode colocar um terno Armani. Pode usar uma bolsa Victor Hugo. Pode...

Então vamos combinar o seguinte? A gente esquece os pronomes de tratamento (que aliás, estão sendo usados erroneamente, assassinando a gramática), age com elegância, e, tal qual na Guerra Fria, mandamos gentilmente presentes no Natal? E, além disso, só por um dia, você escolhe qual, só por esporte, falemos de lasanha de quatro queijos, banhos de mar e cortinas, mas esqueçamos dessa história de justiça. Eu sou uma escritora e, por isso, acho um crime hediondo não respeitar as palavras, colocando-as num contexto completamente diferente da realidade.

Eu não me rendo. Não nessa vida.

Um brinde àqueles que não se rendem!



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 01h12
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Primavera

Se hoje fosse o melhor dia da minha vida... Você lembra? Descongelei vulcões! Mas hoje meu máximo de felicidade é ouvir um jazz por acaso, nesse mundo de cores psicodélicas. É primavera, então eu posso.

"Entrei no mar no meio de uma madrugada de inverno, de roupa e tudo, esqueci até do horário pra voltar"

Voltei dez mil anos. Só porque é primavera tive vontade de cortar suas mangas em pedaços, ligar pra números inexistentes, perdidos em uma agenda carborizada. Então o telefone tocou, mesmo sem haver música, e eu atendi mesmo sem teclas.

"Vou de amarelo, só pra fingir que é verão"

Como a gente se surpreende com as próprias sensações durante as estações... Ainda ontem parecia estar frio em pleno verão e, quando finalmente chegou o inverno, mal usei cobertores. E agora, mesmo sendo primavera, não quero parir ninguém. Só quero me sentar sob aquela grande pedra na rua dos perdidos e agradecer ao mar abaixo, por nunca sair do lugar. Por ter refletido os olhos dele naquele dia no arco-íris. Só quero dizer aos meus amigos que sinto tanta falta deles, mas tanta, que criei milhares de personagens dentro de mim pra me sentir mais perto de cada um. E por hoje termos nos comprometido a tantos reencontros, a primavera finalmente chegou, embora isso tenha parecido impossível por tantos e tantos anos.

"e tem aquele outro. Ele é tão lindo que no dia da aula dele, sempre esqueço o caderno, as canetas..."

Estou de volta. Eu disse que voltava. Me perdoe a demora, acabei indo tão longe. Parecia sempre outono. Parecia triste a cada por do sol. Parecia uma dívida impagável, uma calça sempre remendada que eu não poderia jamais me desfazer, um resto da vida presa injustamente, um pesadelo recorrente. Parecia um pecado lavar o rosto, passar maquiagem e calçar sandálias brancas. 

"Amor não é virar a noite acordada: é virar a noite, o dia e a noite seguinte"

Me emocionei com um e-mail. Não por ser uma mensagem lembrando de mim, mas porque era algo como: ei, você tem uma vida, lembra? Era algo me lembrando que já fui morena, ruiva, hippie, estrela e desalento, mas sempre tive um brilho insano nos olhos. Não vou abrir mão dessa insanidade.

"a voltar sempre inteira"

Estou aqui hoje pra resgatar o penhor. Não permitirei nunca mais que alguém me diga quem eu sou. Não abaixarei a cabeça e nem falarei sim com tanta condescendência. Não assumirei culpas que não são minhas.

"excelente é o brigadeiro de panela da minha mãe"

Quero mais que estrelas: quero as galáxias.

"Vamos rodar, voar, rodar, até cair?"

Quero o perfume cítrico dos anoiteceres de sábados. Os sorrisos humanos. As piadas intermináveis. A certeza de estar sempre cometendo uma travessura, de ser clandestina, indecifrável. As pessoas mais estranhas do mundo. Essa vida de cartas em garrafas lançadas ao mar. E dessa vez, não tenho por sorte: eu fiz por merecer!

"Escreve menina! Escreve sobre qualquer coisa"

Estou de volta. Eu disse que voltava.

"Não parece muito certo esse jeito de ver, mas pra quem tem tantas confusões a cerca dos cenários, como seria diferente? Tira as conclusões debaixo d´água? Tem uma abelha naquele quadro. Só você sabe o caminho, então, o máximo que posso fazer é pintar bem as unhas e vestir aquele casaco cor de rosa que parece meu. Estou de volta. Eu disse que voltava".



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 22h28
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Quase

Está quase chegando. Você vê também o sol, latindo entre nuvens?

Você deve pensar... deve ser pecado ser feliz assim! Não se engane: pago o preço todos os dias. Respiro devagar, decoro as cortinas, os papéis, as paredes brancas. Sempre brancas. Parece cal jogado no meio da minha respiração. A paz é um verdadeiro martírio, se você pensar bem.

Mas estou feliz, proferindo aquelas frases certeiras, você sabe quais são. Irreverência sempre! Se lembrar de celebrar muito mais ;) . Não sabe brincar não desce pro play. Engula meus cactos amarelos.

Sinto falta de ter enxotado ele do carro, ela da mesa de jantar. Fiz mais: saí das redes sociais, troquei de telefone, não entro no msn, tampouco retorno tentativas de contato. Só falta morar naquela ilha: o ápice da liberdade é ser autista. E não me julgue; sou doente o suficiente pra me serem perdoadas as piadas sobre insanidade.

Só cansei, sei lá, de ser sempre inverno. Tá na hora da primavera!! E ela está chegando, sei que está. E aí, todas as caras de chuva não vão poder impedir. As flores sempre reinam.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 22h25
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Passagem de volta

Enquanto não acabar o doce, eu como até o fim. Estou me lixando se vou precisar correr a praia inteira amanhã. Comigo, não sobra um granulado na geladeira.

Não sente à mesa com um jogador profissional se não souber mentir olhando nos olhos.

A primavera está chegando. Não chegou ainda por conta dessas nuvens insistentes. Mas não há quem consiga barrar o passar das estações. Basta um abrir e fechar de olhos...

Eu precisa falar, avisar, lembrar tudo isso, por conta dos últimos acontecimentos, e dos penúltimos também. Mas hoje quero contar outra coisa. Eu vi sua passagem de volta! Sei que por esses dias você vai chegar naquela mesma estrela cadente, de óculos escuros e vestindo a camiseta branca. Você tem aquele encanto secreto de ator agradecendo o óscar.

Então quando você chegar, vou servir a mesa com a louça de cristal, colocar as flores no seu colo e... Olha, o jogo todo, a panela de doce na pia, o tapete vermelho, até aquela estrada gasta demais às minhas costas, fim.

Depois do seu telefonema às 3:32 da madrugada, lembrei de um seriado antigo, das janelas da escola, das ruas desertas da minha infância. A vida e o que ela é, nada desse sol plastificado insistindo em nascer diariamente dentro do meu coração, como se eu já estivesse irremediavelmente vendida. Não, não. Eu só me penhorei.

Aí chegam os primeiros números do dia no relógio da cozinha. E eu sem saber fazer contas, contava as horas pelas batidas, em sentido horário, claro. Mas aí você me ligou e finalmente os ponteiros voltaram a voltar os minutos, e depois acelerar os segundos e parar por dias dependendo da hora. Foi como se um véu descesse sobre o mundo e eu estivesse novamente naquelas vielas submersas, lendo o destino das pessoas nas palmas das mãos, atravessando brumas pra chegar a terras inexistentes.

Traga vinho. Em troca disso e do resto, prometo rasgar seus papéis. Só pra começar... 



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 23h30
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Eu te amo

É fácil amar os santos, os corretos, os bem quistos. É fácil colocar no nosso álbum pessoal os que fizeram as escolhas certas, deitam-se todo dia após lavar a louça, estão nas listas Vips e tem as mechas sempre em dia. Sabe? Eu sequer tenho álbum e por muito protelei mesmo voltar a fazer parte de redes sociais.

Tenho pra mim que a coisa mais importante da vida é levantar, abrir as cortinas e ter como vista a paz. Você côa seu café, esquenta o leite, toma um banho quente e tem certeza que vai vencer o dia, não porque alguém vai assinar embaixo e dar o certificado de vencedor, mas porque o telefone vai tocar e a certeza absoluta é que vai ser alguém que gosta de você de verdade. Os passageiros, aproveitadores e obcecados por fotos bonitas, nem tem mais meu telefone.

Já fui uma pessoa cercada por ligações, aprovações, brindes e Vips. Hoje, mal saberia onde usar uma entrada gratuita, porque nem sem onde ficam os lugares aonde as pessoas vão. Eu fico aqui e, por mim, aqui está ótimo. Recebo em casa alguns convidados maravilhosos, pessoas que se você conversasse meia hora, daria metade dos seus anos de vida para estar no meu lugar.

Essa minha felicidade é infinita, pois independe do meu estado psicológico, civil, financeiro. Eles sempre estiveram ao meu lado e sempre estarão. Quem tem uma certeza dessas, pode jogar com todas as cartas, dados e peças. Meu maior tesouro não vale dinheiro. Jamais estarei à altura, a despeito de tentar, incessantemente, todos os dias, devolver ao menos uma lasca de tanta felicidade.

Obrigada, obrigada, obrigada. Amor é pouco. Devo a vocês a paz de cada dia. Vocês sabem quem são, porque estavam lá. Nunca deixaram de estar lá, mesmo eu nem fazendo por merecer.

Se voltei como voltei, devo a eles. Por isso, digo com absoluta convicção: é muito fácil aplaudir os aplausíveis, mas esse sorriso tão honesto, sequer digno de mim, você só tem aceitando. E, no fim das contas, sabe o que você está aceitando? A paz. Parece simples. E é. Só depende de você.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 02h43
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Orando

Foi tão diferente do prometido. Era pra ser uma menina na sacada, esperando um futuro brilhante, com as faces sempre rubras, os cabelos negros cacheados nos ombros tão magros. Desafiar o destino tem seu preço, como tudo. Ainda esperam minha volta triunfante. Eu, só quero ir. Quanto mais longe do esperado, melhor.

Você imaginaria, naquele banco de pedra em frente ao nada, ouvir Paris antes da meia noite, em plena sexta-feira, já esgotada a garrafa de vinho? Ao menos me sobra Dido. Pra quem há pouco só respirava com melodramáticos como Oasis... Quem sabe no verão toque Shakira ou, ouso sonhar, Norah Jones!

E entre letras e candelabros, espero ao menos acordar amanhã com a resposta que preciso. Não quero mais uma vida me esvaindo das mãos, como se a cada inverno eu entregasse de graça uma lasca da alma por não conseguir usar os sinais para salvá-los.

Essa noite foi tão longa. É muito fácil pedir aos servos pra executar divinas tarefas. Queria mesmo ver você descer e tocar um coração além do meu, tão sensível às vozes ocultas. Gostaria de ser menos prepotente, egoísta e tão atrevida, mas tantos foram os encargos, que vez ou outra me sinto por demais sobrecarregada e ajo com essa ousadia.

Na verdade só gostaria de agradecer, não pra salvar meus dias após, pois isso mal prevejo no horizonte. Devo ser grata por tamanha confiança. Por ter me devolvido a paz que eu pedi. Pela segunda chance. E lembranças às estrelas, conte de minhas saudades e do meu amor. Se não, rogo por apenas cuidar. Pelo simples fato de serem estrelas.

Um dia o mundo vai ser tão diferente

Aquelas pedras em frente ao mar vão falar conosco

Você vai ver como é bonita a vista daqui de cima

E a gente vai viver todo dia daquela música divertida

 

Uma noite de estrelas tão brilhantes

Como você, como eles, como nós

Como se o mundo não fosse sempre tão tarde

Imagina poder escolher a sobremesa!

 

Daí eu servirei café com aquele bolo que você adora

E as toalhas jamais estarão sujas de vodka

Prometo que o amor vai vencer dessa vez

E nós seremos tão lindos quanto naquela tarde

 

Então guarde nosso sonho para amanhã

Porque hoje só podemos orar e crer

E ainda que despenquem tempestades do deserto

Eu esperarei por você com o amor de sempre

 



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 23h45
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Just try not to worry. You'll see us some day.

Apaguei tudo que tinha escrito. Ninguém precisa saber. Me basta que você saiba, e disso eu tenho certeza. Não é adeus, é só amor. E é pra sempre.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 17h28
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Banquete

Botas de salto alto na areia fofa da praia. Psiu, me dá uma dose de você com um pouco de tequila. No fim, camisas xadrez e chapéus brancos são o tudo do tudo de bom. Hoje não danço no inferno. Ei, sou uma princesa. Me deixa sozinha com o vinho, só preciso disso. Você fala demais e NADA tem sentido, graça, bocejo. Pés. Jaqueta cor de rosa. Transcendência. Basta me dar um mar gelado, bicicletas de parede e olhos lilás. Você gosta disso assim tudo colorido. Joga confete no meu cabelo? Todo dia parece carnaval. Quero você agora, sujo mesmo, ou nunca mais. Vendo o produto, mas não entrego. Deita aí quietinho então e nem me passe os olhos. Me estende um tapete vermelho porque eu sou a menina mais feliz do mundo!! Presente pra você: um pouco de cicuta com esterco. Coloco seu coração dentro do balde de gelo torcendo pra ele parar. Me beija até dar o horário da passagem e depois me fala seu nome por telepatia. “Se ela tá namorando é comigo”. Perdi na tranca, na sinuca, na adivinhação e, principalmente, nos dados. Almocei na senzala ontem. “Vamos girar? Até cair no chão? Vamos Má???”. Edredons vermelhos. Venci, você viu? É, eu lembro que dia é hoje, mas tanto faz, tenho muiiita classe. Não tenho facebook, nem orkut, só uma meia calça preta, serve? Gastei meu salário naquela saia. Larga tudo na cama, coloca só as meias na mala e sobe essa trilha até ela acabar, se acabar. Liga sim, mas não amanhã, liga ontem!  Vi três milhões de estrelas, três vezes. Me dá um abraço então, que eu tô gostando tanto de gostar das pessoas! Contagiante!!

Matei quem tava me matando.



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 17h15
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De volta

Não sei se eu desistiria. Acho que não. Por muitos motivos. Meus nervos são feitos de um material um pouco diferente e minha fé passou por provações que ao invés de diminuí-la, esquentaram ainda mais o sangue que corre nas minhas veias. Não me acho melhor por isso, nem pior, apenas diferente. Claro, também tenho minhas dúvidas, mas no fim sempre volto. Demore o tempo que for. 

 

Preciso de um pouco de loucura nos meus dias, de ver a vida sob esse prisma de cores psicodélicas, de despenhadeiros intermináveis. Não saberia escrever usando apenas os tons existentes nas aquarelas vendidas em qualquer loja de esquina. Sou um pouco delirante, viciada em usar sapatos mais largos do que os meus pés, em entrar em rios escaldantes e estampar queimaduras de vigésimo grau. 

 

Não sei se tropeço tanto por meus pés serem tortos ou pela escolha por insistir nessas estradas desalinhadas. Dou um pouco mais do meu coração do que é permitido por lei e sempre pago o preço por isso, como se nesses casos houvesse enfim justiça. Sou uma criminosa reincidente. Mas ai de quem entrar em minha cela cobrando minha partida sem adeus. Só vou embora quando não sobrou mais nada realmente, por isso, não aceito certas visitas nem pra me oferecer fiança. Prefiro apodrecer em meu calabouço escolhido a me rebaixar a ser resgatada por fantasmas.

 

Acendo minha lareira eterna e brindo com taças de cristais, seja água ou champagne. Esteja onde estiver, estou no céu. Vestindo trapos de dançarina arruinada ou vestido da melhor seda. Uso meu sapato preferido da época independente da ocasíão ou da temperatura ambiente. Entedie-se como quiser: prefiro almoçar com vampiros em noite de lua nova a colocar uma corda em meu pescoço com tanta condescendência. Sangro madrepérolas se for preciso. Daí vem minha nobreza, do fato de rasgar dinheiro se for preciso. Vendo qualquer coisa pra eles, menos minha alma. Não tenho preço. Desde sempre.

 

Então, o que estou tentando dizer é que eu voltei. Desfiz minhas malas e coloquei os cadarços nos cabides e os casacos na gaveta de papéis. "Toda errada", eles dizem. Tem graça, até. Aposto que morrem de curiosidade em perguntar como me calço tão rápido se mal sei onde enfiei as sandálias. Não vou mais permitir interferências externas em meus mapas medievais, meu desalinho, meu rastro de caos. Vai ser do meu jeito. E se você duvidava da minha volta, lamento desapontar, mas estou melhor do que nunca! Coloca minha cadeira de volta no meu lugar na mesa e quanto ao vinho, não pare nunca de servir...



Escrito por Martha Negro de Carvalho às 16h17
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